Quando pensamos em fatores que ajudam a memória, geralmente lembramos de boas noites de sono, atividade social ou desafios cognitivos. No entanto, há outro elemento igualmente importante — e muitas vezes subestimado —: as associações mentais. Pesquisas científicas mostram que elas têm um papel direto no funcionamento da memória e da cognição em geral.
Uma associação é uma conexão que o cérebro cria entre duas informações diferentes, como “café e bolo”, “gato e leite” ou até estímulos culturais que aparecem juntos no mesmo contexto. Esses elementos passam a ser ativados simultaneamente em nível neural.
Essas conexões ajudam no funcionamento diário, pois permitem prever situações, planejar ações, decidir o que evitar e o que buscar. O pensamento associativo influencia diretamente o desempenho cognitivo, a resolução de problemas e o pensamento crítico.
Associações e percepção
Existe uma relação clara entre a capacidade de criar associações e a percepção humana. A percepção pode ser dividida em dois níveis:
- Percepção de alto nível: envolve interpretar informações sensoriais e transformá-las em memória e significado.
- Percepção de baixo nível: envolve aspectos mais básicos, como detectar contrastes de cor, brilho e mudanças visuais simples.
Estudos anteriores já demonstraram que as associações influenciam a percepção de alto nível. Pesquisas mais recentes, no entanto, também investigam seu impacto nos níveis mais básicos da percepção.
Embora chamada de “baixo nível”, essa etapa é fundamental, pois o aprimoramento de processos básicos pode influenciar diretamente funções cognitivas mais complexas.
O que dizem as pesquisas
Em um estudo experimental, participantes foram expostos a pares de imagens relacionadas (como macaco–banana) e pares de imagens não relacionadas (como uvas–bandeira). Em seguida, foram avaliados em tarefas que exigiam percepção visual de baixo nível.
Os resultados mostraram que os participantes tiveram melhor desempenho e maior velocidade quando as imagens apresentavam uma relação associativa clara.
Por que isso acontece?
A explicação está na forma como o cérebro organiza o conhecimento.
Cada imagem ativa automaticamente informações já armazenadas na memória. Quando duas imagens estão relacionadas, a segunda já é parcialmente “preparada” pela ativação da primeira, o que facilita o processamento.
Quando as imagens não têm relação entre si, o cérebro tenta encontrar uma conexão que não existe. Esse esforço adicional aumenta a carga cognitiva e reduz os recursos disponíveis para a tarefa principal, prejudicando o desempenho.
Associações e memória no dia a dia
Quando não conseguimos identificar conexões claras entre informações, o cérebro tende a continuar buscando relações mesmo assim. Esse processo aumenta a carga mental e pode reduzir a eficiência perceptiva e cognitiva.
Por outro lado, as associações são formadas automaticamente na maior parte do tempo — e isso é essencial para a memória. Informações armazenadas na memória de longo prazo são organizadas justamente por meio de conexões com conhecimentos anteriores.
Por isso, treinar a capacidade de criar associações pode melhorar significativamente a recuperação de memórias.
Associações como ferramenta de memória
Criar associações não precisa ser apenas um processo automático. Também pode ser feito de forma intencional.
Por exemplo, é possível conectar conscientemente duas ideias ou informações para facilitar sua lembrança futura. Como o cérebro já funciona naturalmente com base em associações, esse tipo de estratégia “artificial” pode ser extremamente útil no dia a dia para reforçar a memória.
Em resumo
A criação de associações é um dos mecanismos fundamentais da cognição e da memória. Ela influencia desde processos perceptivos básicos até funções cognitivas mais complexas.
Ao entender e utilizar melhor esse princípio, é possível melhorar a forma como lembramos informações, organizamos pensamentos e lidamos com o mundo ao nosso redor.
Artigo baseado no trabalho de Roni Lustigman, analista de dados cognitivos e membro da equipe de pesquisa da Effectivate.
Fonte do estudo citado: https://www.nature.com/articles/s41599-020-00577-w


