Nossa capacidade de criar novas memórias e utilizá-las é muito mais complexa do que imaginamos. O processo de formação de uma memória, e sua recuperação horas, dias, meses ou até anos depois, envolve várias etapas. Para que uma nova memória seja criada, precisamos primeiro prestar atenção às informações recebidas, depois analisá-las, transferi-las da memória de curto prazo para a memória de longo prazo e, por fim, armazená-las em um “arquivo” adequado no cérebro.
Como uma memória é construída na prática?
Por exemplo, quando uma pessoa experimenta uma manga pela primeira vez, ela precisa prestar atenção em diferentes aspectos: o nome da fruta, sua aparência e seu sabor.
Depois disso, o cérebro analisa essas informações (como “amarelo”, “redondo”, “doce”, “textura diferente”) e integra tudo em um único conceito: manga.
Se houver atenção suficiente durante essa experiência, essa nova memória passa pelo processo de consolidação e é armazenada na memória de longo prazo. Assim, o conceito “manga” pode ser guardado no “arquivo de frutas”, junto com maçã, pera e laranja.
Com um processamento mais profundo, essa informação pode ser ainda melhor organizada, por exemplo, dentro do “arquivo de frutas tropicais”, junto com abacaxi e mamão.
Assim como em uma casa ou escritório, quanto melhor organizamos a informação na memória, mais fácil ela será encontrada depois.
Como funciona a recuperação da memória?
“Como é mesmo o nome daquele ator do filme? Algo com ‘N’…”
Recuperar informações da memória é um processo igualmente complexo.
Quando queremos lembrar algo, precisamos acessar o “arquivo mental” correto. Para isso, utilizamos pistas de recuperação, também chamadas de indícios (retrieval cues).
Essas pistas podem surgir por associação, por exemplo, ver uma manga no supermercado ou ouvir alguém falar de um smoothie de manga com banana.
Quando o cérebro acessa o “arquivo de frutas”, ele tenta localizar a informação correta. Em alguns casos, lembramos do sabor e da textura, mas não do nome, algo como: “era amarelo, começava com M… talvez mamão?”
O fenômeno “na ponta da língua”
Todos já experimentamos o fenômeno conhecido como “na ponta da língua”.
Sabemos que conhecemos a informação, às vezes lembramos até do contexto, mas não conseguimos acessar o nome exato.
Por exemplo, podemos tentar lembrar o nome de uma rua como “Rei Saul”, mas acabar lembrando “Rei Salomão”, porque ambos são nomes de reis e possuem semelhanças sonoras.
Isso acontece porque, no momento da aprendizagem, as conexões entre as informações podem não ter sido suficientemente fortes. Assim, o cérebro precisa de mais pistas até conseguir acessar a palavra correta.
Onde podem surgir as dificuldades de memória?
As dificuldades de memória podem ocorrer em diferentes etapas do processo:
- Codificação: falta de atenção às informações no momento da aprendizagem
- Organização: dificuldade em conectar e estruturar as informações corretamente
- Recuperação: dificuldade em acessar a informação armazenada, mesmo com pistas
Qualquer uma dessas etapas pode prejudicar a lembrança rápida e completa de uma informação.
Memória na terceira idade
O envelhecimento traz mudanças fisiológicas naturais, e uma delas é a redução da eficiência de algumas funções cognitivas. Isso pode afetar a memória em diferentes níveis, como atenção, codificação e recuperação.
No entanto, o cérebro não é uma estrutura fixa. Ele é altamente plástico — o órgão mais adaptável do corpo humano — e continua mudando ao longo da vida.
Hoje sabemos que o cérebro pode formar novas conexões e, em certos contextos, até gerar novos neurônios. Esses processos dependem diretamente do nível de estímulo e desafio que oferecemos a ele.
Quanto mais o cérebro é estimulado por novas atividades, aprendizagem e desafios cognitivos, mais ele tende a se reorganizar e fortalecer suas redes de memória.
Para concluir
A memória não é um sistema único e simples, mas um conjunto de processos interligados de atenção, organização e recuperação de informações.
Entender como ela funciona nos ajuda a usar melhor nossas estratégias cognitivas no dia a dia, e também a perceber que, com estímulo e prática, ela pode continuar a se desenvolver em qualquer idade.


