Estudos realizados nos últimos anos têm investigado a eficácia de uma intervenção abrangente para preservar a saúde cognitiva em idosos com risco de demência. Essa intervenção sistêmica inclui alimentação, exercícios físicos, monitoramento de doenças crônicas e treinamento cognitivo. Ao avaliar o risco de desenvolver demência, diversos fatores além da genética são considerados, como idade, escolaridade, sexo, pressão arterial, colesterol, diabetes e peso corporal. Sabe-se que, entre os fatores que podem nos proteger — como educação — e os fatores não modificáveis — como a idade — existe uma grande oportunidade de influenciar o resultado. A premissa central é que cerca de 50% desses fatores podem ser monitorados e modificados, principalmente por meio de tratamento adequado e mudanças no estilo de vida.
Intervenção Sistêmica
Um grande estudo realizado na Finlândia (Finger Study) investigou o impacto de uma intervenção sistêmica ao longo de dois anos em aproximadamente 1.300 pessoas com mais de 60 anos, todas com risco moderado de demência. Os participantes foram divididos em dois grupos: um grupo experimental, que recebeu um protocolo combinando alimentação, exercícios físicos, monitoramento de doenças crônicas e treinamento cognitivo; e um grupo controle, que recebeu apenas monitoramento das doenças crônicas, incluindo colesterol, glicemia e pressão arterial.
Ambos os grupos passaram por avaliações cognitivas no início do estudo, após um ano e ao final dos dois anos. Os resultados mostraram que nenhum dos grupos apresentou declínio cognitivo, e houve até melhora durante o período. Isso foi interpretado como uma notícia muito positiva, já que o acompanhamento cuidadoso e o tratamento das doenças crônicas conseguiram preservar e até melhorar a função cognitiva. No entanto, o grupo experimental apresentou melhorias ainda maiores, especialmente em testes relacionados à velocidade de processamento e funções executivas.
A intervenção sistêmica para prevenção da demência deve começar na meia-idade e variar de acordo com a fase da vida, aproveitando janelas ideais de intervenção. Por exemplo, em idades mais jovens, é importante tratar diabetes, depressão e problemas de sono. Já em idades mais avançadas, deve-se dar atenção à perda de peso excessiva, mobilidade reduzida, dificuldades auditivas e visuais e prevenção de quedas.
Hoje sabemos que o envelhecimento não começa de repente após a aposentadoria, mas é resultado de processos biológicos que têm início já por volta dos 30 anos e são profundamente influenciados pela reserva cognitiva acumulada ao longo da vida. Além disso, há uma compreensão crescente de que as necessidades de saúde mudam com a idade, especialmente à medida que a expectativa de vida aumenta. Não por acaso, cresce também o mercado tecnológico voltado ao desenvolvimento de soluções inteligentes para atender às necessidades da população idosa.
O que é demência?
Demência é uma condição causada por diferentes doenças, sendo o Alzheimer a mais comum (cerca de 70% dos casos). Diferentes tipos de demência apresentam processos patológicos distintos e afetam diferentes áreas do cérebro. Por exemplo, a demência frontotemporal (DFT) envolve principalmente os lobos frontais e costuma provocar alterações marcantes de personalidade já nas fases iniciais.
Segundo o Dr. Dale Bredesen, existem diferentes tipos de Alzheimer, alguns compartilhando fatores em comum, como genética e alterações cerebrais relacionadas ao acúmulo de proteínas dentro e fora dos neurônios. Outros fatores incluem processos inflamatórios, imunológicos, metabólicos — como resistência à insulina — e até exposição a toxinas.
Dr. Bredesen publicou diversos casos em que conseguiu reverter processos de declínio cognitivo por meio de intervenções sistêmicas personalizadas. Evidentemente, isso não se aplica a todos os casos, mas reforça a importância de uma abordagem ampla e individualizada tanto na prevenção quanto no tratamento.
A saúde do cérebro vai além do cérebro
É importante lembrar que a saúde cerebral não depende apenas do cérebro em si. Quando o cérebro funciona bem, tendemos também a cuidar melhor da saúde geral: fazemos exames, tomamos medicamentos corretamente, mantemos atividades físicas e sociais. Quando o cérebro funciona pior, nossa capacidade de cuidar da própria saúde também diminui.
Tudo está interligado. Por isso, é essencial manter equilíbrio em diversas áreas da vida: sono, alimentação, atividade física, saúde geral e estimulação cerebral. Nossa capacidade de influenciar a qualidade do envelhecimento exige responsabilidade individual e começa com perguntas importantes:
- Estamos nos movimentando o suficiente?
- Estamos nos alimentando bem?
- Estamos negligenciando consultas médicas?
- Estamos adiando o uso de óculos ou aparelhos auditivos?
- Estamos socialmente isolados?
- Estamos desafiando nosso cérebro o bastante?
E dentro de tudo isso está o cérebro. Se sentimos que não estamos estimulando adequadamente nossas capacidades cognitivas, que nossa concentração piorou ou que temos dificuldade para aprender coisas novas, talvez seja hora de parar e traçar um novo caminho.
Podemos começar reservando tempo para atividades que desafiem o cérebro diariamente, como leitura, Sudoku, aprendizado de idiomas, jogos mentais e treinamentos cognitivos. O mais importante é manter o cérebro ativo, curioso e constantemente estimulado.
Referências
- Ngandu, Tiia, et al. A 2 year multidomain intervention of diet, exercise, cognitive training, and vascular risk monitoring versus control to prevent cognitive decline in at-risk elderly people (FINGER): a randomized controlled trial. The Lancet, 2015.
- The End of Alzheimer’s de Dale Bredesen.

