Treinamento Cognitivo: Uma Perspectiva Histórica

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A história do treinamento cognitivo, como o conhecemos atualmente, começou no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Pesquisadores da área da cognição, em diferentes laboratórios ao redor do mundo, passaram a transformar tarefas utilizadas em pesquisas científicas sobre habilidades cognitivas em programas de treinamento.

Um exemplo bastante conhecido é a tarefa chamada N-BACK, utilizada para avaliar a memória de trabalho. Hoje, ela está presente em diversos programas de treinamento cognitivo, incluindo o famoso aplicativo Lumosity. Naquela época, os treinamentos cognitivos eram menos semelhantes a jogos e voltados principalmente para dificuldades específicas do desenvolvimento, como problemas de atenção e transtornos de aprendizagem.

Com o passar do tempo, diferentes programas de treinamento cognitivo foram desenvolvidos, oferecendo maior variedade e acessibilidade para públicos de todas as idades. O crescimento desse mercado foi impulsionado pelo avanço da tecnologia, que tornou computadores, tablets e smartphones amplamente disponíveis.

Atualmente, estamos acostumados a aplicativos e jogos digitais, o que permite realizar treinamentos cognitivos praticamente em qualquer lugar, em clínicas de reabilitação, em casa, na cama ou até mesmo durante deslocamentos no transporte público.

A Relação Entre Habilidades Cognitivas e Sucesso na Vida

Os programas de treinamento cognitivo são baseados na prática de habilidades cognitivas fundamentais, como atenção, memória de trabalho e funções executivas.

A atenção refere-se à capacidade de focar seletivamente em informações relevantes. A memória de trabalho está relacionada à capacidade de manter e manipular informações mentalmente durante a realização de uma tarefa. Já as funções executivas correspondem a um conjunto de processos responsáveis pelo controle e regulação das emoções, pensamentos e comportamentos.

O interesse nessas habilidades surge porque existem diferenças significativas entre as pessoas, e o nível de funcionamento cognitivo está relacionado à inteligência, desempenho acadêmico e capacidade de adaptação às demandas do cotidiano. Em outras palavras, habilidades cognitivas fundamentais desempenham um papel importante no sucesso pessoal, profissional e social.

Treinamento Cognitivo: Uma Perspectiva Histórica

Platão, Budismo e Cognição

Ainda na Grécia Antiga, Platão incentivava seus alunos a praticarem cálculos mentais como forma de aprimorar o raciocínio e desenvolver maior agilidade intelectual durante debates filosóficos.

Da mesma forma, textos budistas do século III a.C. já discutiam formas de aprimorar a mente humana, nossa capacidade de pensar, sentir e perceber tanto as experiências internas quanto o ambiente ao redor. O pensamento budista compreendia que a mente precisava ser treinada para favorecer uma relação mais saudável consigo mesmo e com o mundo.

Os Primeiros Exercícios Mentais

Exercícios mentais voltados para o fortalecimento da memória, especialmente da memória de longo prazo, já existiam antes da Revolução Industrial.

No final do século XIX, com o crescimento de movimentos espiritualistas e de autoaperfeiçoamento, surgiram panfletos e programas que incentivavam o treinamento cerebral para fortalecer a mente e ampliar o potencial mental.

Um desses movimentos foi a frenologia, bastante popular nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, que combinava exercícios de autoajuda com tarefas cognitivas repetitivas, como jogos de cartas para melhorar a concentração. Ao final do século XIX, um dos primeiros programas comerciais de treinamento cerebral já havia alcançado mais de 500 mil participantes em todo o mundo.

O Sistema de Treinamento de Atenção de Catherine Aikman

No final do século XIX, Catherine Aikman, professora em Connecticut, desenvolveu um sistema de treinamento da atenção para seus alunos. Ela propunha sessões curtas de aproximadamente 15 minutos por dia para fortalecer atenção e memória. Aikman publicou dois livros descrevendo seu método e os resultados observados em seus estudantes. Seu objetivo era melhorar a capacidade de atenção para permitir que os alunos recuperassem informações rapidamente, mantivessem essas informações ativas na mente, utilizassem-nas no raciocínio e, consequentemente, desenvolvessem maior controle sobre seus próprios processos mentais.

Em outras palavras, ela acreditava que o treinamento cognitivo poderia contribuir diretamente para um melhor desempenho acadêmico. Em 1907, o pesquisador Whipple, da Universidade Cornell, apresentou estudos sobre os efeitos do programa de Aikman em um encontro da American Association for the Advancement of Science.

Cognição e Qualidade de Vida

Psicólogos do desenvolvimento que consideravam o pensamento como um componente central do comportamento humano passaram a desenvolver programas voltados para o aprimoramento cognitivo com foco em experiências de aprendizagem positivas. Jean Piaget, por exemplo, defendia que existia uma relação direta entre motivação, autoconfiança e habilidades cognitivas.

Também foram criados programas para aprimorar funções executivas em profissionais submetidos a alta demanda cognitiva, como pilotos de avião.

Treinamento Cognitivo e Bem-Estar Emocional

É importante destacar que o treinamento cognitivo também pode influenciar a qualidade de vida e a resiliência emocional. Nos últimos anos, diversos estudos investigaram o uso de treinamentos cognitivos simples em mulheres em recuperação do câncer de mama. Os resultados indicaram melhora na sensação de bem-estar e qualidade de vida. Outras pesquisas mostraram que tarefas cognitivas simples também contribuíram para reduzir o sofrimento emocional em pessoas com tendência à ansiedade.

Esses resultados sugerem que existe um mecanismo comum relacionado ao controle cognitivo que pode ser treinado e fortalecido, promovendo benefícios emocionais e funcionais.

O Mundo Moderno e as Novas Demandas Cognitivas

Quando comparamos o passado com o presente, percebemos mudanças significativas nas exigências cognitivas da vida cotidiana. No passado, era essencial memorizar informações, desenvolver raciocínio crítico, aprender ortografia e passar horas estudando em bibliotecas. Hoje, muitas dessas demandas foram transformadas pela facilidade de acesso à informação digital.

Estamos vivendo uma profunda mudança na forma como utilizamos o cérebro. As habilidades cognitivas continuam se adaptando ao novo mundo, e os métodos de treinamento cognitivo também evoluem junto com essas transformações.

Conclusão

O treinamento cognitivo evoluiu de simples exercícios mentais para programas estruturados apoiados pela ciência, tecnologia e psicologia cognitiva. Atualmente, ele não está relacionado apenas ao desempenho intelectual, mas também à qualidade de vida, bem-estar emocional, autonomia e adaptação às exigências do mundo moderno.

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